quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

keep me warm

Delicadamente comprava bolinhas de isopor que lembravam neve, para espalhar pela casa toda dando a impressão do legítimo Polo-Norte.
Pensava em cada coisa, recortava de revistas as letras que compunham uma carta, cujo remetente era o velho Papai Noel.
A árvore, pequena, simples, humilde, ficava na mesa de centro, feita de madeira, naquela casa, sobrado, de telhas quebradas.
Os enfeites eram simples, o mais simples possível, na verdade.
Os presentes ficavam abaixo, sempre aquela boneca que mais queriam, ou qualquer sonho de consumo que ela custava a realizar para poder dar tudo que podia.
O Papai Noel viria daquela portinha no teto do corredor, que na realidade era de acesso ao telhado.
Todo dia 24 à noite havia uma desculpa, ela sempre entrava no carro mais tarde, ou ia depois.
Ele sempre fingia estar irritado, e elas nunca entendiam aquela longa demora, mas brincavam no carro... ansiosas pelo que viria depois.
Dentro de casa ela corria de um lado pro outro, pegava os presentes, colocava debaixo da árvore, pegava as cartinhas, jogava em cima dos pacotes, pegava o isopor, transformava-o em neve.
Corria pra arrumar tudo para que na volta da Missa estivesse tudo pronto, tudo ajeitado, e o suposto Papai Noel já tivesse passado.
Era uma mãe, com todas as preocupações que isso gera, inclusive a de criar neve numa terra de garoa.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

everything ends

Era um dia qualquer,
mais um almoço entre todos os outros que não comi com você.
Aquele restaurante tinha mais de dez anos,
os dez anos que passei sem ter nem um pedaço de você.
Percebi, então, que nunca tinha comemorado nada ao seu lado desde quando me tornei um ser pensante.
Percebi que você partiu sem conhecer o Viena, e os novos lanches do Mc Donalds.
Percebi que você jamais tinha me visto falar inglês, cantar uma música e definitivamente nunca tinha ido me buscar de madrugada numa festa ou no shopping.
Percebi todas aquelas coisas que jamais tive,
pequenas, simples, até demais
Como pedir dinheiro pro lanche, ou pedir um prato no jantar.
Percebi que jamais tinhamos passado um Natal juntas pós-eu acredito em papai noel.
Percebi que comecei e terminei namoros sem que você soubesse ou conhecesse cada um deles,
que cada coisa que existe há menos de 13 anos não teria seu olhar, sua notoriedade, seu comentário...inclusive eu.

Percebi também que continuo sem andar em linha reta
que ainda gosto de ver tv bem de perto, deitada no tapete,
percebi que sou a criança que chora em dia de feira, que se tornou todo dia, pela sua eterna ausência.

domingo, 13 de dezembro de 2009

save tonight

Aquele era o passeio mais perdido de toda sua vida,
vagaram por 12 estações de metrô e caíram sem rumo em uma avenida movimentada;
o motel tinha o letreiro falho e um nome medieval,
do tipo que se deitasse cairia em uma cama povoada de ratos,
e cujo refrigerador guardava uma latinha de Coca-Cola de 1980, a primeira daquele lote número um.
Consideraram parar, sentar, dormir, quem sabe fazer um pouco, mas pensaram nos riscos das doenças intransmissíveis que pegariam e desistiram em apenas um olhar;
riram.
Riram das mesmas coisas, como faziam desde a primeira vez que se encontraram bêbados numa festa colegial;
quando ela derramou um copo de vodka pura no pé vestido de sapato chique, "de festa", que ele achava combinar com a camisa semi-aberta que mostrava seu peito nada sarado.
Riram.
Sete segundos e dois goles de cerveja depois eles se beijaram pela primeira vez,
dezenove minutos depois estavam no taxi,
e trinta e nove minutos depois, fumavam um cigarro.
Seguiram pela rua apressados, sinceramente, não tinham pra onde ir.
Mas seguiram,
com os dedos entrelaçados,
entraram num shopping dedicado à venda de móveis, cuja concentração no cinema extrapolava qualquer limite racional.
Desistiram,
visitaram lojas fingindo serem casados, namorados, todos aqueles títulos que viriam a destruir toda e qualquer conexão que os levara até alí.

sábado, 5 de dezembro de 2009

if anything could ever feel this good again

Oh I just can't take it
My heart is racing
The emotions keep spinning out

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

o pra sempre, sempre acaba

Não se encontraram mais desde que tudo aquilo acabou,
eram melhores amigas e sequer se vêem na rotina do dia a dia.

Ela vai se casar, aos 19 anos com alguém de 32.
Rico, bonito, e "me ama".
Você o ama?
O silêncio planou.
Ela sorriu, repetiu as qualidades: dinheiro, carinho, respeito e religião.
Eu sorri, demonstrando compaixão.

Me lembrei dos sonhos que ela tinha,
encontrar alguém que fizesse seu coração acelerar,
esquecer aquele namorado que ela fora proibída de ter,
pedir perdão dos beijos que ela jamais pode receber,
e almejar um mundo que ela jamais teria.
Ela queria sair a noite,
ir pra qualquer balada,
beijar qualquer garoto,
usar alguma regata.

Ela queria usar maquiagem,
passar batom vermelho,
uma mini saia,
e vagar por qualquer lugar sem destino.

Ela queria qualquer coisa,
sem poder querer nada,
ela queria o amor
Mas isso é muito pra se querer

Eles terão filhos, depois de fevereiro, quando se casarem numa cerimônia repleta de clichês e convidados.
Ela não pode me chamar, não sou da turma.
Não usaria as roupas e nem compartilho das crenças,
incluindo o amor.

Costumávamos fazer tudo que era pecado,
sair,
comer chocolate antes do almoço,
entre outras coisinhas mais.
Eramos errantes,
eu normal,
ela pecadora,
mentirosa,
suja, por denominação estranha estrangeira.
Eramos.


Ela tem um apartamento agora,
a irmã mais nova está noiva, vai casar no mesmo mês em que eu vou me formar.
Ela tem um marido, filhos em vista, largou os estudos,
a faculdade,
os sonhos.
Abriu mão de tudo sem pestanejar.

Vai morar no norte, sul, leste ou oeste...qualquer lugar bem longe de onde ela deveria estar
Vai chegar aos 45 mãe de 3 filhas, e mais dois meninos.
Vai ter um gato, cachorro não pode, quem sabe um sítio e um papagaio.
Vai assistir a novela das 8 e criticar a atriz principal,
vai ouvir alguma música no rádio e pensar nos crimes que o mundo comete,
vai ser julgada,
jogada,
domesticada.
Vai ser.
Sem ser.

Nos despedimos por falta de assunto,
jamais poderia contar pra ela do resto do mundo,
e jamais poderia me encaixar naquele conto que saia da sua voz,
perguntei se estava feliz,
ela sorriu.
Eu lamentei graciosamente
Ela disse estar bem, no rumo certo.
Disse também que me ligaria pra eu visitá-la, quem sabe, algum dia depois do casamento
Eu disse que tudo bem,
nos abraçamos.
Desconfortávelmente repetimos o ato que faziamos todas as manhãs quando eramos menores e, no caso dela, incoerentes.
Repetimos o ato que faziamos todas as manhas quando eramos menores e, no meu caso, felizes.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

o pra sempre, sempre acaba.

Nos tornaremos estranhos,
compartilharemos o mesmo passado,
e uma distância enorme do futuro.

Seremos os eternos melhores amigos de colégio,
que sentavam juntos e contavam segredos,
que se amavam sem dizer,
que se odiavam em meio a berros e brigas virtuais

Seremos os melhores amigos que não deram certo,
aqueles que tinham tudo pra compor sua própria série de tv,
mas se perderam antes mesmo de entender,
que o tempo nos afastaria;

Te olho em fotos,
distantes,
amarelas.
E me lembro de todos aqueles planos que ficaram guardados,
como aquelas cartas,
bilhetes
e juramentos de amizade eterna.

Seremos os melhores amigos incompletos,
que se afastaram por um motivo qualquer,
tempo, vida, fofocas e intrigas;

mas seremos melhores amigos


Seremos a loira e a morena,
o marido e a mulher,
aqueles apelidos nossos que ficaram numa memória que nós mesmos fizemos questão de esquecer

Seremos a memória da amizade perfeita,
digna de uma tela de cinema,
de um filme de sucesso,
de uma amizade de fracasso.

Seremos tudo que sonhamos juntos em ser,
mas dessa vez seremos separados
Vocês aí, eu aqui
Sem sequer saber o que se passa do outro lado

Seremos a lembrança de tardes de cinema,
batatas-fritas e batidas,
seremos a terna lembrança de toda aquela amizade iludida,
do pra sempre que durou tão pouco
Da amizade destruída.

Seremos os melhores amigos distantes,
que se esbarram por acaso
fantasiados
errantes

Seremos as melhores amigas sonhadoras,
que se realizaram sem saber,
que viveram tudo aquilo que planejaram,
sem sequer entender o porque

Serão a minha metade eterna,
que se separou de mim.
Seremos melhores amigos
nessa eternidade que teve seu fim.

E quando nos reunirmos contaremos as mesmas histórias,
chatas,
sem graça,
mas que fazem sentido por serem a única coisa que nos resta.

Falaremos com pressa,
inventaremos compromissos,
enquanto falamos desiteressados.

Tiramos fotos,
sorrimos,
clamamos por mais amor,
mais amizade,
mais saídas.
Enquanto aceleramos o passo para qualquer lugar fora dalí.

Fingiremos sono, doença, pé quebrado
Fugiremos de qualquer encontro,
sob qualquer desculpa
e prometemos uma próxima vez.

De tempos em tempos baterá saudade,
nos ligaremos,
faremos uma sessão terapia,
onde cada uma conta sobre o seu dia, ano ou mês

Fingiremos nos importar,
mas só se não tiver uma coisa melhor pra fazer,
um filme melhor pra não ver.

Seremos a união de um passado que não volta
e um presente que não se liga.
Seremos simplesmente lembranças,
fotos,
histórias,
mais um conto de melhores amigas.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

just stay a while baby and then you´ll see

Esqueci de te contar do meu sonho,
daquele que tive quando te conheci.
Esqueci de te contar os detalhes, daquela noite em que você me chamou pra sair...
Não sei se esqueci ou se não deu tempo,
mas eu nunca mais te vi por aqui.
Você devia aparecer mais...

Nossa! Acabo de me lembrar que estou com a sua carteira,
com todos os seus documentos,
com todos os seus segredos...Preciso te devolver!
Você devia aparecer mais...

Poxa, acabo de me lembrar que perdi,
o seu programa favorito,
e aquele filme saiu de cartaz...
acho que precisamos alugar.
Você devia aparecer mais...

Me lembrei que nunca te contei da minha vida,
que você nunca soube do meu vício enorme por chocolates,
ou a minha cor favorita...
Você devia aparecer mais...

É violeta,
e também gosto daquelas calças xadrez, e daquelas roupas alternativas que você usa quando quer ser estilo moderno
Eu gosto também de preto, mas acho que é porque sempre me acho gorda...caso você queira saber
Você veria meu vestido favorito, caso aparecesse mais.

Você veria meu brinco,
ouviria qual a música que está no meu fone de ouvido,
e eu te falaria mais,
das minhas neuras, brincadeiras, manias e bobeiras
Te contaria mais alguma piada tonta pra você babar coca-cola e fingir que não fez nada
Te contaria alguma história escrota, pra você ignorar e contar uma melhor só pra não deixar o silêncio tomar conta
Sério, você devia aparecer mais!

Eu não te falei qual a minha música favorita,
você não me mostrou a sua.
Você não me pagou aquele lanche e eu não te paguei seu suco de cevada...
Nossa...definitivamente, você precisa aparecer mais

Eu esqueci de te perguntar,
qual time você torce?
qual a sua cor favorita?
e por que você sempre se cala diante de qualquer coisa que seja dita?
Você devia aparecer mais...
Quem sabe assim eu poderia te perguntar
Quem sabe assim não fosse tão difícil falar
Que você simplesmente devia aparecer mais...

todo o amor que houver nessa vida

Você nunca pode substituir alguém, pois cada um é composto de detalhes tão específicos e lindos...

Descobri que se apaixonar por coisas e pessoas, é na verdade se apaixonar por detalhes.
Na essência somos todos seres humanos, e o que nos diferencia são pequenas e grandes manias,
poucos ou muitos detalhes que nos fazem diferentes;

Desde coisas óbvias, como o corte de cabelo, ou a roupa que usamos.
Até pequenas coisas, como o modo de andar desajeitado e curvado, ou simplesmente deslizar por qualquer corredor.

Está no sorriso, tímido ou aberto;
no tom da voz, berrando, ou sussurrando,
está no xadrez da calça,
na camisa longa,
ou em qualquer coisa que componha qualquer visual.

Está.

Está nas entrelinhas,
sempre disfarçadas
sempre caladas.

Está nos detalhes de tudo aquilo que você sempre quer dizer que repara, mas nunca pode.
Por medo,
por saudade,
por pavor.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

but I shot a men in Reno, just to watch him die

Entre a ânsia de ter e o tédio de possuir eu me intercalo.
Me jogo em vontades, e me canso fácil.
Me arrisco pro mundo, e me quebro, cansada, de tédio, enfadonho.
Grito, esperneio, junto dinheiro, compro, largo.

Faço cara, fico emburrada,
em 10 minutos perde a graça.
Recomeço tudo de novo.

Sou um poço de vontades,
todas sanadas,
se tornam meias verdades,
encostadas.

Quero, pelo simples verbo querer.
Tenho, pela simples ganância de ter.

Reclamo, grito, choro,
me faço de morta, cortos os pulsos, me jogo.
Pulo de penhascos, em rios, quebro tudo que estiver sob a mesa
E no final de tudo, ainda saio ilesa.

Entre a ânsia de ter e o tédio de possuir eu me intercalo.
Pulo muros, quebro paredes, movo montanhas, me faço de amor.
Sou puro rancor.
Sou todas as ânsias supridas pelo tédio.
Sou todo o tédio que se cura por ânsias.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Tempo amigo seja legal

Tenho 2 minutos para esperar o trem.
Para escolher a porta.
Tenho meio minuto para escolher o vagão, achar uma cadeira,
saber se durmo, ou não.
Tenho 10 minutos de estação em estação,
tenho 1/5 disso pra escolher se dou a esmola praquele pedinte, trabalhador, criança, ou vendedor.

Tenho 5 minutos de caminhada,
tenho 3 minutos de espera,
tenho mais 10 de percurso pela estrada.

Tenho um Artic Monkeys para andar,
tenho 6 horas pra esperar passar.
Tenho mais duas até chegar.

Tenho um trajeto todo até a janta,
uma janta toda até dormir.
Um sono inteiro até acordar.
Um dia inteiro, da mesma rotina todo dia, até chegar;

Tenho 5 dias até o fim de semana,
tenho mais dois até uma nova semana,

Tenho um mês pra fazer as compras de Natal,
dois até passar de ano,
três até ficar mais velha,
quatro pra começar a contar tudo de novo.

Tenho 19 anos pra contar de história,
mais uma porção que ainda quero montar,
tenho 24 horas num dia,
que se somam as 24 do outro.

Mas todo dia,
independente da hora,
e de quanto tempo tenho,
sempre fico imaginando
Sou eu que possuo o tempo,
ou ele que me possui?